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27 de junho de 2010

O colapso agrícola da Venezuela. Como destruir uma Nação!

Palavras tais como soberania, desenvolvimento endógeno ou patriotismo, tem sido parte da nomenclatura da revolução bolivariana venezuelana. No entanto, se quisermos transcender a propaganda e desenhar qual é a realidade em termos de independência, por exemplo, na chamada “segurança alimentar” que tanto tem promovido o governo, poderíamos dizer que o tradicional pavilhão crioulo, e emblema da cultura culinária venezuelana, prato com o qual cresceram todos os venezuelanos, já não é mais crioulo.


90% de seu ingrediente que é o feijão preto é importado de outros países do continente. A metade de outro ingrediente que é a carne provém do Brasil, da Argentina, Chile e Nicarágua; outro produto que faz parte desta receita, o arroz branco, também é importado, 350 000 toneladas, o que corresponde a mais de 30% do consumo nacional. E se for para acompanhar essa culinária nativa com uma boa arepa, devemos saber que também estamos importando 300 mil toneladas de milho branco, que são processados na Venezuela, para compensar a queda de um milhão de toneladas que deixamos de produzir há vários anos.

Por que em 11 anos somos mais dependentes do exterior em matéria de alimento? Hiram Gaviria, produtor agropecuário e especialista em alimentos, indica que vários fatores foram combinados para se produzir a situação atual. Uma das mais emblemáticas foi o confisco de milhares de unidades de produção; para um total de 3.000.000 hectares que estavam em plena produção, apenas 50 mil hectares continuam produtivos. Isto tem um efeito multiplicador, porque quando uma fazenda sofre uma intervenção, os vizinhos igualmente sentem-se confiscados.

A insegurança pessoal de bens e de vida que a maioria dos produtores venezuelanos sofre - como o seqüestro, assalto e roubo de gado -, ocorrem muitas vezes com a cumplicidade das forças de segurança pública no âmbito destas ações, é outro elemento que incide na queda de produção.

Também os preços regulados influenciam na baixa produção, enquanto há uma inflação de custos. Eles congelam o leite, a carne, milho, enquanto há aumentos de mão de obra, das rações para os animais, o preço da bobina de fio de arame, o trator, os agroquímicos. A isto, agregue-se a deterioração da infraestrutura do país, tais como estradas, sistemas de drenagem, irrigação, em meio a um boom do petróleo, diz Gaviria. Isto nos levou a gastar 11 bilhões de dólares em compras de alimentos no estrangeiro em 2009.

Situação da carne
Segundo Manuel Cipriano Heredia , presidente da Fedenaga , que até 2003 a Venezuela era praticamente autosufiente na produção de carne, importando apenas 1% - que era destinado a cortes especiais para as grandes cadeias e restaurantes. A partir desse ano começou a regulação dos preços da carne até então era regido pela lei da oferta e da procura. A experiência vivida no país, diz Hall, indica que os controles de preços só têm efeitos em curto prazo, mas em seguida gera o desaparecimento dos produtos, porque não se pode produzir com perdas. Isso é o que está acontecendo com o leite e com a carne

Assim, de acordo com o boletim do gado, em 1998 eram produzidas 407.601 toneladas de carne bovina e importados apenas 3.670, especialmente de cortes especiais. Em 2009, a produção nacional caiu para 269 952 toneladas, enquanto que as importações ascenderam a 395. 484 toneladas. O boom importador disparou a partir de 2004 com a importação de 64.500 toneladas, enquanto a produção caiu para 346. 488 toneladas. A queda foi precisamente nesse ano, quando se combinou vários elementos da política governamental: controle de preços, controle de câmbio e a massiva expropriação de fazendas produtivas. As conseqüências dessas ações foram que, de um país que gozava de plena autonomia na produção de carne, passamos a importar 52% do consumo nacional em 2009.

Situação do leite
A Venezuela levou 20 anos de trabalho para ter uma política leiteira contínua, explica Manuel Cipriano Heredia. De 1968 a 1988, nós alcançamos uma meta de produção nacional de 80%. Mas desde 1989, quando entrou o segundo governo de Carlos Andrés Perez, foi decretada a eliminação do plano de política leiteira, que dava incentivos à produção nacional, à qualidade e até mesmo licença para exportação; inclusive era feito um acompanhamento de melhoria continuada nos padrões de produção, e esse processo era conduzido pelos setores oficial e privado.

A partir desta medida houve uma queda significativa na produção nacional. O critério foi, então, o de que era mais barato importar do que produzir. No entanto, até 1998, apesar do declínio registrado, segundo os números consolidados pelo Cavilac, do total da disponibilidade de leite (2.087,5 mm litros), 67,7% era produzido internamente, enquanto a importação era de 30,3% .

Já em 2008, praticamente se inverteu essa relação, quando a produção nacional atingiu apenas 36,1% frente a 63,9% de produtos lácteos importados. Esta tendência continuou em 2009 e segue em 2010.

Explica Cipriano Heredia que houve momentos em que se produziu um excesso de importação de leite como aconteceu no final de 2008 e 2009, acima do consumo interno. Essa política de importação, sem planejamento, está se refletindo no caso dos containeres com leite estragado.

Outros produtos
De acordo com dados consolidados dos diversos organismos e associações profissionais feitas por Hiram Gaviria, estão importando 650 000 toneladas de açúcar do exterior de uma produção de um 1 milhão 200 mil toneladas, ou seja, 55% do que os venezuelanos consomem . A produção de cana, há quatro anos era de 9,2 milhões de toneladas, enquanto que a última colheita de 2009 foi de 5,7 milhões de toneladas, segundo dados da Associação de cultivo da cana de açúcar.

De trigo importamos praticamente tudo, 600 mil toneladas. A Venezuela sempre dependeu das importações de trigo.

Também estamos importando 300 mil toneladas de milho branco para processar na Venezuela. Fizemos isso pela primeira vez em 20 anos. Importamos 350.000 toneladas de arroz branco. Antes, havia excedentes e 250.000 toneladas eram exportadas para a Colômbia.

Importamos dois milhões de toneladas de grãos para ração, como milho, sorgo e 1 milhão de toneladas de soja, sendo este usado em rações balanceadas para a alimentação de frangos e porcos.

Esta informação merece análise, porque apesar de estarmos abastecidos com ovos, frangos (só compramos10%) e suínos, a Venezuela tem que trazer do exterior as rações para alimentar esses animais e os custos de produção destes três itens significa dois terços dos custos totais , o resto é mão de obra, eletricidade, depreciação dos equipamentos e assim por diante. Então, apesar de sermos autosuficientes nesses itens - temos uma indústria avícola e suína importante que cria empregos – trata-se de uma indústria de montagem que requer grãos importados . Enquanto na Colômbia, Bolívia, Brasil e na Argentina, as galinhas, os ovos e suínos são 100% produção nacional, em nosso país tem um grande componente importado de duas matérias-primas que poderiam ser produzidos na Venezuela.

Importamos quase todo o óleo vegetal que consumimos, cerca de 400 mil toneladas. Isto porque diminuíram o plantio de girassol e amendoim. Produzimos um pouco de óleo de palma em Monagas e no Sul del Lago de Maracaibo, mas é basicamente para o fabrico de sabão, nada para o consumo humano.

Quanto aos grãos, eles são importados do Chile e da Argentina -, 95% do feijão preto que comemos, cerca de 95 mil toneladas.

No café há um déficit de 13 milhões 800 mil quilos de café. Mas há quatro anos atrás, a Venezuela estava completamente abastecida com a produção nacional, com excedentes que eram exportados para a Europa. Chegamos a exportar US $ 400 milhões em café, enquanto nossas importações de alimentos eram de US $ 600.000 milhões.

Quanto gastamos no exterior
A atual situação de acordo com números extraídos do Cadivi e BCV, em 2007, foram gastos 3.600 milhões de dólares em importações de produtos agroalimentares . Em 2008, o número subiu para 7.500 milhões de dólares e em 2009, segundo dados fornecidos por Jorge Giordani, 11 mil milhões de dólares.

Isso significa que nós estamos trazendo do exterior 392 dólares, em alimentos, por habitante. Em 12 anos nós teremos saltado de 70 dólares, por habitante, para 392. De um déficit na balança de 1.200 milhões de dólares passaremos para um déficit de 10 bilhões de dólares.

O especialista esclarece que o governo pode alegar que estamos importando mais, porque aumentou o consumo. Mas vamos colocar a carne como exemplo: em 1999, nosso consumo era de 17 kg por habitante / ano e produzíamos 17 quilos. No ano passado, o consumo de carne aumentou para 23 kg / pessoa / ano, mas destes 23 kg produzimos somente 11 kg . Tivemos que trazer do exterior outros 12 kg por habitante.

Mas a produção também diminuiu em itens tradicionais, como o tomate, tabaco e laranjas. O emprego diminuiu nas zonas rurais. De acordo com o INE, entre 2004 e 2009, foram perdidos 125 mil empregos no meio rural venezuelano.

Por Francisco Olivares – El Universal – Tradução do FiladaSopa

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